quinta-feira, 8 de março de 2012

Quando os olhos profundos encontram a superfície

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Perdi um diário pelo mundo; os dias que foram se foram outra vez. Voaram das caixas, gavetas, malas, idas e vindas, nuvens, com um sopro de invisibilidade. Há um rastro serpentina por areias frias, restam sulcos cansados. Perdi e nem idéia do paradeiro, cabelos para trás, mandíbulas à mostra. Enfim estes olhos profundos vão à superfície, em salto desesperado, olhos planos sem qualquer artifício, maquiagem, máscaras de camomila, nem cremes de rosa mosqueta. Perdi certos dias, feitos para serem lembrados em outros, mediante pétalas recolhidas, em um diário de capa de xita. Xitinha: flores pequeninas, brancas, azuis, amarelas, em fundo vermelho sangue. E ditos com gosto de sangue, cheiro de sangue, formas de sangue, riscos, mortes: um cemitério de pensamentos falecidos em palavras. Há, de todo, um capricho do tempo, e das geografias. GPS nos marcadores, [[OJO]] dois olhinhos e um nariz –xereta!-, para localizar minhas partes espalhadas pelo mundo. São restos de: unhas, pêlos, cílios, suores, espinhas, peles, caspas, larvas, dores, cafés, cinzas, embalagens, cuspes, capas, cascas, escamas, lamentos. Os dias guardados para iluminar a existência: para ler-se e desconhecer-se depois, ou reencontrar-se, odiar-se, amar-se, entre outros reflexivos.

Para ser um ano bom; um carinho diário aos dias. E mais silêncio.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

oito de copas

Intemperança: pelas paisagens, vale de destroços. Dos olhos arrebatados, do estômago sacudido; os olhos veem cinzas, pese o insistente colorido do corpo satisfeito. Do corpo lembrado do amor. Agora um sol delicado, à pele nenhum ardido. Porque as calçadas movem-se segunda-feira, a alma epilética idem. Um velho atira uma ponta de cigarro contra minhas canelas. Olho, nem mesmo desvio. Se queimo, nem mesmo percebo. Se percebo, nem mesmo me importa. Por dentro o solo convulso, não convencido: um mar de páreas, um mar de vazios, um cerco tolo, um gueto lama. Ser elegante e suportar, em nome da maturidade, sussurrar esta superioridade com ditos de bem vividos. Para? Não será nunca compreendido. E será arrogante. E será inútil. Ainda que seja importante tomar os pelos selvagens dos sentimentos aguerridos. Expressá-los. Contra os cânceres. Melhor será apenas uma perspectiva amarga. E nenhum mar à vista, para purgar de mim a mim mesma. Esse mim mesma corrompido. Exausto. Um ponto de vista, eis que é, um lugar posicionado (ainda que mal!), vistas guardadas no bolso, palavras, pessoas embrulhadas, guardados, guardados enrolados em panos, pétalas em lenços, ruídos, frases, cinzeiros, copos, guardados tempos, outros, guardados. Portas batidas ao ouvido, depois murmurinhos, acontece. Acontecem sábados, domingos. Segundas atropelam, arrancam, desentranham, engasgam, apoderam, sujeitam. Segundas recordam os malfeitos, os defeitos, os incidentes não esquecidos. E não há paz sem olvido e um olvido é um tipo de morte. Haverá que matar mais um trânsito, uma freqüência pirata, silenciar outra vez o juízo. O juízo vez e outra deseja guerra e trono, império, sangue, vísceras. À custa da temperança, insinuam-se as loucuras. E o juiz-juízo vê assim. E quer ver assim, não há dito que o amanse. Um leão no peito, que reina, que urra, que balança a juba e é adorado. Mesmo quando escolhe a coadjuvância, por generosidade, respeito ou qualquer sentimento que o alastra a culpa católica ou o moralismo. Ou uma justa noção ética. Ou um inacreditável senso de honra. E justiça. Não adiantará. Porque há ouro em seus contornos, ainda que ausente, é sua figura revolvida, inquirida e reivindicada. E sempre haverá répteis, insetos e dragões indesejados.

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Quando haverá de amornar este espírito, por uma segunda-feira mais branda, me pergunto. Por uma segunda-feira-rotina, sem gosto de lâmina, sem rebuliços. Algo se move dentro de mim, cronicamente, como estas segundas. Fardo das almas irrequietas. Ou da ira de um mar bravio esverdeado, recusado por largas ausências.

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Sábado de bicicleta por bulevares e sob coloridas árvores e entre ventos carinhosos úmidos. Paramos: havia uma carta no chão, 8 de copas. Oito copas de intemperanças. Depois, outro sábado, outras espécies. Outras dores, saudades, promessas que jamais se cumprirão. Tristezas que trespassam alegrias já não mais tão alegres. E que encontram força em outras tristezas, oxalá menos definitivas.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

[ recatos ]

Porque escasseia a profundidade na maioria;
Porque essa maioria rasa é em geral mais tagarelante;
Porque essa tagarelice encontra mais espaços onde existir;
Porque estes espaços fazem repercutir eloqüentes asneiras;
Porque se repetem tais retóricas ademais em círculos ditos seletos;
Porque as seletividades se argumentam criteriosas;
Porque os critérios se entranham em razões mais plausíveis que justas;
Porque os silêncios podem matar os verborrágicos emudecidos;
Porque os profundos podem estar fadados à asfixia;
Porque um grito é um resultado de reservas explodidas além da voz;
Porque a rasidão não permite compreender certas camadas poéticas do mundo;
Porque a profundidade dói à ponta de broca;
Porque, dada tal sensibilidade, as carnaduras podem, enfim, não suportar tanta dor.


Algumas entre outras razões para recatar-se. Ou à causa de uma exclusão crônica.



terça-feira, 26 de julho de 2011

32 # 23

 
 
                           
                                    
 
 
                                         
                 
                                                              
             
presentes de aniversário  ]


                                 






quarta-feira, 20 de julho de 2011

obras escolhidas; trânsitos e estranhos transes


Ai, meu coração revirado. Dias no Brasil, motivos vários, abraços de variadas profundidades e espécies. Puestas en escena, teatros, roteiros, textos, cenários, brindes, frases, tons. Vi algumas lutas de encaixes, acordos para pertencer, os preços por um lugar aflito, por estar, de outros em outros lares não deles. Mas vi, de outra sorte, apelos comovidos, olhares reais. Senti apertos, desconsertos, gritos. Em mim, um lábaro, um poço, um fosso de guardados, semi-expostos sociais, alguns reais perdidos, alguns pesos despidos, calor maior parte das vezes. Um frio reiterado em certas ocasiões, em gestos raros, em fartos goles, em inacabados códigos, não tão identificados. Um pó de vida ou dois; éramos duas entre multidões, e nem mesmo dupla, um + um, escalas de dimensões dinâmicas, em trânsito e em transes. Inesperados carinhos, encontros, desencontros: vi meu tempo só, meu tempero na minha língua, meu tato em meus ombros cansados, alguns arranhões cobertos. Eu vi um canto de vertigens, de gentes e estéticas, vitrines; essa guerra não travaria, entre contos e cantos traiçoeiros, mais vale uma estranha letra em ouvidos solitários; mais látegos, menos cotovelos. Menos aspirantes ou concorrentes, talvez prefira ameaças não tão reluzentes e minhas dores mais minhas. De fato, na pele tocaram poucos, meus sentidos a níveis loucos, à camada do coração apenas uns. Uns que na mala deram gemidos, por excesso e sobrepeso temido, de tanto absorvido, assimilado. Trago comigo certos contidos, afagos, perplexidades e pensamentos indefinidos, palavras soltas, fios descascados e cafés. Bom sentir-se amada e entre queridos, em todo caso, essa brasileiríssima saudade. Depois, perdida demais para voltar, encontrar as mesmas portas trancadas, o mesmo frio da madrugada, o mesmo não por destelhar. Enfim, em uma semana, um ano novo meu, uma nova unidade nos números, algarismos nos tempos, dígitos nos zelos. Mais difícil encontrar razão com o espírito assim de quente, notas que voam pelas redes sociais ausentes, presentes meus acidentes verbais. Massificadas as tecnologias, quase passo dias sem horas e meios, em contrastes de regalias, recursos e freios. Aos uns tocados pelos afins, o beijo derradeiro envio por fim, pelo vento, perfumes, bocados. Ainda que os choros persistam, os risos salvam, as tolerâncias conservam, os amores resgatam. Esses uns sabem-se assim. Bom sentir-se “nós”, dias que sejam, afinal de contas.

domingo, 12 de junho de 2011

Uma pétala de coentro, entre o palato e a língua

Tem-se cultivado com as pétalas caídas [auto-agricultura íntima]. Contidas apenas em brado; a estação é de reserva, cisternas, resguardo. Chovem outras chuvas, os córregos abaloam as durezas, resultam seixos rolados. Sínteses, entanto, áspero, às vezes, ácido, então, vazios. As asperezas do necessário [fazer o que há de ser feito], os passos que não sejam aflitos; querentes, não desesperados; antes de fome, não de miséria, as pétalas são apenas vestígios. Amareladas as pontas das pétalas, a terra ainda é pobre, a guerra ainda é hoje, o sangue, ainda corre. Ainda dentro. Circula, ainda assim, embora se creia frio, [¡es que no!] arde ainda, avermelha-se fogo, o azul quase finda. Azul dos sentidos comuns, segue morrendo e nascendo pétala, otimizado o aproveitamento, essa coisa auto-suficiente, auto-existente, auto-exigente, auto-ecossistema e ínfimo, my time, my lord, it´s a long way. São asas caídas essas pétalas-adubo, pouco coloridas, íntimas, rascunhos; pétalas excremento, de força mais que beleza. As forcas evitam-se, bem como os látegos. O pescoço ainda lamenta um colar de marcas, asfixias, querelas. Pérolas nos lóbulos e nas entranhas, são delas, são elas: pétalas auto-combustíveis. Nos ombros restam manchas estranhas, da intriga de um a um. De si a si. De peito a peito. Do gineceu, aquietam-se os pareceres, no fim são menos juízos, dizeres... e menos torpezas, então menos armadilhas, my time, my lord, my sense; mi tiempo se desmenuza negro y perfumado en el colador: dias alternos de café colombiano. De outra sorte, são dias não tão alternos, my time, my sense, my world. Tem-se cultivado tantas coisas e tantos lábaros, oh baby já se evita pensar nas saudades – inclusive as mais abstratas e estranhas, inclusive de amados íntimos desconhecidos. Não me venhas com mambos. Por dentro há poços mais profundos que meus olhos, mais sangrados que meu payot escarlate. Que não sejam duros os olhares [entretanto], entre tantos sacrifícios. O sangue que permaneça por dentro. As pétalas que alimentem esse peito ruminante, so hot, so live, so red. Ainda que todo esse silêncio seja apenas um desalentado grito [sejamos tolerantes ao lugar-comum, no fim os clichês foram um dia vividos]. My time, my space, meu labirinto;;; essa retórica de variáveis.

...

Uma pétala de coentro para muitos dias, entre o palato e a língua, minuciosamente saboreado.



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[foto: Júlio Paiva]