segunda-feira, 24 de agosto de 2009

fiesta de la virgen de urkupiña

Sábado, 15.08.09, em Villa El Libertador.

Celebração religiosa da comunidade boliviana em Córdoba.

domingo, 2 de agosto de 2009

la chifladura inauténtica de los 30

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Ela, frente ao espelho – ser autêntico de Heidegger – prendeu ao alto seus cabelos para dar um ar de Farrah Fawcett. Impregnada de Caio (Fernando Abreu), memórias e um imaginário insistente daqueles anos oitenta assimilados antes da adolescência, necessitava ser aquela que desejou ser quando ainda tinha oito anos. Era 1988, mais ou menos, sua musa-diva-fawcet-caseira (Mrs. Carly) baixava a cabeça para escovar os cabelos de oito louros diferentes a causa dos repetidos reflexos de modo a criar um volume maravilhoso. Ela desejava ser essa mulher absoluta, de cores explícitas, brilhos, plumas, lurex, uma estética ousada e elegante sempre, cabelos, unhas, roupas e acessórios. Os bares da casa, nessa época, de fórmicas, cerejeira e composições de espelhos recortados, serviam whiskies em copos que davam a ilusão de vidro trincado, era moda. Pousava cigarros despudorados, sobre cinzeiros presenteados em natais, dias das mães, porque era tudo familiar e legítimo, enquanto observava a liturgia atentamente, da religiosa boemia meio onde cresceu. Ela trazia os sapatos scarpin da musa, já separados da caixa ao lado da cama. Não os ousava calçar pois seus pés pequenos podiam deformar o desenho espetacular que tinha para atingir o tal salto quinze. Enquanto seu modelo perpetuado de mulher-glamour-de-trinta-caiofernandiana arrumava-se para mais uma festa de sábado, ela aprendia essa feminilidade sensual dos batons vermelhos e das sobrancelhas finas. Às vezes, sua diva arrumava um coque no alto da cabeça e, nesse trâmite delicado, ela se deliciava com os movimentos ágeis das mãos esculpindo o penteado que haveria de durar toda uma noite e todos os drinques. Entorpecia-se com o spray fixador misturado com o Loulou adocicado demais para seu gosto cítrico e amargo de dias futuros. Agora, ela mesma, diante do espelho – em seu turno, era sua vez – desejava e entrava nesse transe, para fazer concreta uma imaginação armada, desde sua infância. Estava o doce, o cítrico e o amargo da boemia oitentosa daquele mundo que a formou. Talvez por isso Papel (aquela querida personagem que cruza sua história com a dela) reconheceu Bete Davis Eyes em sua figura de ser autêntico de inautênticas angústias e astros. Aí sempre esteve. Não havia uma dose de whisky na pia do banheiro, nem um cinzeiro, nem uma platéia solitária a admirar seus gestos. Havia ela e essas lembranças turvas. E ainda um transporte inexato de mundos estrangeiros trespassados. Em alguns minutos, haveria uma festa. E ela seria Farrah, Diane Keaton, Mrs.Carly, Hildas (Furacão e Hilst) ou qualquer musa caiofernandiana ou diva de Woody. Seriam 30 anos, essa pira toda. E escutaria aquelas músicas perfumes, loulou, amarrige, azarro, spray fixador, tedlapidus, Aquarius. Ainda que todos esses cenários estivessem implícitos em uma dimensão íntima e invisível aos convidados, aí estava. Assim como os espelhos inexistentes, ornamentados naquele bar na sala, de cerejeira. Seu mundo seu, tão confundido com loucura, de difícil dialética. Os brindes internos, ausências, paetês tácitos, uma luz a poucos olhos, de olhos que por sorte estavam alguns. Dragões amansados por euforias passageiras, esses dragões de Caio, que não conhecem o paraíso. Mas ela se dava, em seus caros minutos frente ao espelho, aquele paraíso individual. E intransferível.




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“(...) Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia. (...)
Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia de mim.. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. (...)”

FERNANDO ABREU, CAIO. 1988. “Os dragões não conhecem o paraíso” em Os dragões não conhecem o paraíso.

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{foto: júlio paiva; edição despetaladas}

* dia 24 faz também um ano de delírios; sopros e desatinos de Rita Brum. Ao que se somou brinde, nessa noite de jubas, fogo e rímels.

sábado, 18 de julho de 2009

chica klein

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"chica Klein!" - comentário no orkut
{foto e edição Júlio Paiva ; da série inferno astral}

segunda-feira, 6 de julho de 2009

o mundo é um moinho



[que seja desconsiderado o comentário ao final; para alguma sensibilidade os silêncios às vezes são firmamentos. de modo que, a ausência da imagem nos livros proporciona uma fantástica imaginação. desenhos possíveis; um pensamento é, ainda que explicitado, completamente secreto, íntimo e inalienável.]

domingo, 28 de junho de 2009

história com 'e'

Então já não se usava mais a palavra 'estória' para certos tipos de história. Não lembro quantos anos tinha, um dia soube, tudo passava a ser 'história', de fadas que fosse, didática, fictícia, tudo se trataria de histórias com 'His'. Foi algo que me ocorreu, enquanto evito pensar pensando. Não é uma boa hora para pensar. Assim como não é uma boa hora para sentir-se sentindo. Porque simplesmente não é uma boa hora. Talvez, chegue à ligeira conclusão de que, nesse mundo inventado, não convém. Não convém ser real. Salto, corro duas quadras para não perder o ônibus. Alcanço, entro, sento. Mérito por não ficar pensando a mais, enquanto arrumava a mochila para a aula. Enquanto enviava o trabalho diário da faculdade. Enquanto preparava mais uma aula de português. Enquanto lia. Enquanto desenhava. Enquanto cozinhava. Enquanto não pensava, enquanto não. Sábio – ou lúcido, vivo, astuto, sagaz – é um príncipe sentado sobre um cavalo ágil, de dentes limpos, de patas fortes. Enquanto corria, só tive o tempo de passar pelas gentes, agarrar o motor quente e subir. Nem frio havia, nem pensamento algum. Andar é um perigo para encontrar-se, pensando. E se parece insólito ao fim do dia, melhor seria seguir correndo, dormindo que seja. Não convém tanta realidade.


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domingo, 21 de junho de 2009

a mosca no olho

Quando sangra invísivel das mãos Há um sofrimento omisso Sempre sangra Nem sempre é visto Dito Feito Fato Se há silêncios Substância Sangue invisível Discretamente derramado Um fardo descolorido Escondido Resguardado Quando se sangra distraído A dor se vê pelos ruídos Dos olhos revelados


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há um mar revolto em minhas costas



{fotos: Júlio Paiva ; edições: Raquel Queiroz}


domingo, 7 de junho de 2009

on air

Horas poucas, idéias tantas; se vai o dia, nada escuta. Grita: ainda não terminei! O dia vai, em qualquer caso, vai, alguém fica des-sintonizado, des-sincronizado, deixa para amanhã. Deixa para amanhã, toda a vida, ‘toda vida’ nunca cabe hoje, todavia tenta, mas deixa para depois. Hoje é café, pão, louça, cama. Hoje é passo, amanhã é corrida, comida agora. Comigo agora. Todo dia corro, morro, arranco ar negro esfumaçado do umbigo, perco as mais lindas histórias, perco as mais macias pétalas, pétalas, asas amareladas. Uma nova novela na cabeceira. Perco também meu romantismo lindo e ridículo precioso. Escuto essa canção, escuto minha voz, escuto o tempo frio que entra pela janela. Outro tempo, o de fora. Leva esse tempo de dentro, devora, fim da linha, fim do dia, desisto, desiste-se. Desiste o dia. Des-existe. Deixa para amanhã. A vida para amanhã. Agora, guerra. On air. "Air" para os bravos olhos adormecidos. De cansados, descalçados e aflitos.



domingo, 24 de maio de 2009

run baby run

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[em virtude de copias difundidas, pede-se atender a creative commons]

quarta-feira, 6 de maio de 2009

time to pretend

Sempre esse rebuliço, por dentro, por fora não seria diferente. Nervosa? Completamente desequilibrada às vezes; desastrosa, insociável, esquisita, esquizofrênica – vemos que a bipolaridade encontra competidores – ansiosíssima para qualquer, digo, qualquer coisa. A respiração, desajustadíssima. Lenta demais às vezes, mas geralmente apressadíssima. E apressadíssimos esses dias, sábados inteiros de aula. E depois, encapsulamentos... Dias de miserável hedonismo, frustrantes, tristes, outônicos, de amplitudes emocionais devastadoras. Pergunto: haveria motivos para escrever? Muitos. Entanto, ando poupando ouvidos e olhos, ando poupando o mundo, diga-se, desse drama confesso, desse drama tão banal, aparentemente generalizado. Que haveria de especial nisso? A verdade é que a vilania pode servir bem, portanto, melhor que se creia assim. Mantém distância, cerco, solidão. Revirando relações gerais, ando convecida disso. E, bem, talvez seja mesmo a prova viva do dizer popular acerca do que se colhe. Vivem os dedos aos espinhos. E, sim, pode ser que tenham razão todos os inimigos (esquizofrên...). Ou seja uma questão de impaciência, exigência, pessimismo. Impaciência social. Cada vez mais árido, silente e seletivo o caminho. Nada de pérolas a porcos – e essa é uma das mais fantásticas expressões do universo. Os murros em facas desestimulam, ferem e desbaratinam. Acaba-se em amargura, pouca fé humana, social. E dói sorrir sorrindo sem sorriso. Deus me livre da felicidade expediente comportada. E de uma delicadeza-etiqueta muito educada, compromissos. Mas infelizmente nem todo mundo nasce com assessoria para o mundo. Ademais, essa felicidade é, muitas vezes, sobrevivência diária. E não se pode suportar todas as agruras de uma vez nessa vida.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

día del locro*

“¿Qué constituye, entonces, la alienación del trabajo? En primer lugar, el hecho de que el trabajo es exterior al obrero, es decir, que no forma parte de su ser esencial; que en su trabajo, por lo tanto, no se afirma a sí mismo sino que se niega, no se siente satisfecho sino desgraciado, no desarrolla libremente sus energías físicas y mentales sino que mortifica su cuerpo y destruye su mente. Por consiguiente, el trabajador sólo se siente a sí mismo fuera de su trabajo, y en éste se siente fuera de sí mismo. Está en su centro cuando no está trabajando, y cuando está trabajando se halla descentrado. Por lo tanto, su trabajo no es voluntario, sino coercitivo; es trabajo forzado. En consecuencia, no es la satisfacción de una necesidad; es simplemente un medio para satisfacer necesidades exteriores a él. Su carácter extraño parece claramente en el hecho de que tan pronto cesa el apremio físico u otro, rehúye el trabajo como si fuera una peste. [...] Finalmente, el carácter externo del trabajo para el obrero se manifiesta en la circunstancia de no ser suyo propio, sino de otro, de no pertenecerle, de que es él el que pertenece... a otro. Exactamente como en la religión la actividad espontánea de la humana imaginación, del cerebro y el corazón humanos actúan independientemente del individuo —es decir, actúan sobre él como cosa extraña, una actividad divina o diabólica—, así también la actividad del trabajador no es espontáneamente suya. Pertenece a otro, es la renuncia de si mismo.”


[(MARX, Karl, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, Foreign Languages Publishing House, Moscú, 1961, pp. 72-73) en (SAHLINS, M. 1976: “Economía tribal”, en: M. Godelier (comp.): Antropología y economía. Anagrama, Barcelona. pp. 233-259.)]


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* locro – o termo é de origem quechua (luqru, comida de milho) e consiste em um cozido muito popular na Argentina, feito em base de trigo ou milho, com feijão, linguiça, patas e orelhas de porco e a clássica fritura – preparada com cebola, tomate, ají picante y pimentão É tradicional no dia do trabalho; restaurantes, instituições, lugares os mais diversos oferecem banquetes tendo este prato como central nas reuniões comemorativas dos trabalhadores.