-Hilda, não
me fale mais. É bastante. - suplicou a dançarina com seu ser aberto entre mãos.
As janelas abrem para dentro [miradas en
el balcón], diálogos à noite com Beauvoir;;; doce-chocolate-meio-amargo
[olhos de Gal]; asas-pavão-misterioso, ela dança para salvar as plumas e o
equilíbrio; Segue, com inspirações-Hermitianas e sinceridades-Cazuzeanas, entre
torres e mistérios.
De
ambivalências, agridoce. Bananas e Mandarinas. Da estação; gomo a gomo, a
dançarina vê alaranjar a tarde. Aprecia tudo que o olho traga, sentada em novos
bancos ao sol. Transparece. Lavra, põe o corpo e enfia as mãos. Na terra, nas lâminas, no
ventre. Pousa as palmas sobre o umbigo. Afugenta as câimbras. Respira.
Trabalho de
campo, campo aberto; Sol. Observa. Alça pontes. Vai. Confia. Sempre poderá encontrar soluções por caminhos genuínos, tomados das próprias vozes. Fértil e cálida. Sente ventos no rosto. E, assim em vivas carnes, prevê chegar cores de verão e flores do porvir. Hilstiniana, arreganha e flana com outras dançarinas.
Delírios; um-dois-três, um-dois-três; uma questão de perspectiva. Que a minha pele, de
filó, de tramas espaçadas, de sangue exposto e veias altas; De sensibilidades
por opção exacerbadas, Também por opção escolhem ver. Um-dois-três, um-dois-três;
Processos de triangulação: teorias, práticas, pensamentos. Por opção, uma
leitura de mundos aprofundada, colorida e curiosa, trespassada e trespassante por outras carnes.
Há um preço; há que estar e ser inteiro e pedaços a-la-vez; vulnerabilizar-se, esmiuçar-se, desprender-se e
desenvaidecer-se de si. Pragmaticamente. Um-dois-três; Tremem minhas mãos, SIM,
pelas vibrações das brocas que perfuram obsoletas estruturas, nos ritmos dos
meus pensamentos dialógicos e dialogantes- explicação melhor que as vértebras
comprimidas, ainda que não sejam explicações o que buscamos, é possível e
possíveis são muitas coisas-. De todo, as mãos são corpo, e corpo é limite,
partidas e chegadas –um-dois-três, um-dois-três - fronteiras internacionais e
trânsitos. Para miradas desatentas, interpretações limitadas,
ainda que se creia inteligível sob próprias doutrinas e impérios. Uma opção será
limitar-se a esse primeiro juízo. Não sempre equivocado, mas limitado. Outra
será (e nessa vertente, particularmente, finco os meus pés motivados ao
movimento em sapatinhos vermelhos QUE anseiam IR por OZ) deitar atentamente os
olhos pelas estruturas alheias, len-ta-men-te, pelos ritmos alheios cadenciados
com os próprios, discernimentos alheios conversados com os próprios, passeados nas suas
aparentes desordens. Baixar dos castelos, vir ver e viver; aceitar o trato de
desgoverno, das maçanetas, das vertigens, das miradas e do próprio ser. Deixar
ser! Delirar-se entre agudas e inesperadas sinfonias destes estranhos mundos. E rir-se dos que ficaram nas superfícies fáceis e
pálidas, porque estes riem ignorantes, crendo tolos ou inúteis os arrojos, as paciências e os delírios. O trato define a vista. Estas rubras unhas dançam –não tremem- em meio a esta música
que não escutas.
“Quieto”, disse meio telepaticamente ao bicho,
com espécie de fúria-dopada-por-serenidades.
;;;
Um assustado morcego entrou na minha casa,
nesses dias-abismos, e foi pena –não medo- o que senti. Pena do azar, do
desengano, do desencontro, do desencaixe, do desajuste, da desorientação. De
ambos; ele e eu, contrários e dialógicos: ele em movimento intenso; eu imóvel,
porque já debatida demais, de convulsões e lutas anteriores. E coragens
cansadas. E palavras gastas. Esses corpos vazios intercambiados em distração. Sem
significado. Sem substância. O morcego, estático em coordenadas, excessivamente
dinâmico -entretanto- em eixo. Asas cinza, supus, porque não o vi em formas, se
não em mancha. Uma mancha cinza, turva, fora de foco, fora de importância, fora
de contexto. Fora. Não disse, nem pensei em expulsá-lo. Quisesse estar ali,
sorte a dele. Nesses dias não é companhia branda a minha. E em todo caso (sei)
não é fácil estar fora de lugar. Mais ainda se não se é bem-vindo. E ele
transitava ali dentro do meu espaço não dele, embora também não de todo meu; na
minha bolha silenciosa e baixo frágeis acordos, em todo caso, na tumba alheia
(a minha), ali comigo nos meus antros. O que podia fazer era abrir alguma
janela: ainda não me é possível devolver crueldades tão profundas quanto as colhidas.
Ainda assim, como decretarão -ou já decretaram- os laudos e autopsias: feridas
mortais e alma entravada. Mas (também sei) a indiferença pode ser fatal, por
outro lado. E, sim, o havia ignorado por uns minutos. Ou por toda a vida. Eu
também já me sinto um pouco morta, era admirável assim observar sua
persistência em se manter vivo. Ou em movimento, luta que fosse. Mas por onde haveria
entrado, se todas as janelas estavam fechadas? Pela porta, e convidado, supus, como
de regra é para com vampiros. Ou bichos culturalmente associados às trevas. Abri
então a janelinha da cozinha, mais ajuda que esta não daria, tão-quase-morta
estava. E tão cética. E administrando tantas dores simultâneas, por tempo
distraídas. Devia parar a roda-viva e já tentava; é difícil. Parar de agonizar,
revisar as dimensões. A valentia heroica do morcego já era então irritante e
relativizava minha tentativa de apenas existir e resistir ao dia, alcançar o
fim dele, esgotar a noite. Parar com tudo e com todos, era já imprescindível,
quando não, inevitável. Sincerar-se e objetivar. Pensar, whatever works. O bicho saiu; não parei: a mente seguiu irrequieta,
o coração arrastado, a pele em chamas. E nenhuma ideia de por qual vão sair. Ou
expulsar-me. Restou e resta uma fúria incontrolável, fúria
leão-mexeram-com-meu-almoço ou leoa-mexeram-com-meus-filhotes. E indisfarçável,
nem entre as mais sofisticadas máscaras, estas que simulam as expressões
faciais e tudo. E nada por dentro, quem dirá carne, sangue, vísceras, nervos.
Tudo por hora anestesiado. Fechei a janela, “não volte mais”, disse ao relento.
Ou por um tempo. Um tempo suficiente para alguma cura provisória que seja. E
talvez até o convide pra voltar algum dia. A pesar de tudo.
[Para ler ao som de Por una cabeza, Carlos Gardel]
Vibram por dentro vagalumes: pequeníssimas,
fugazes e irrequietas luzes. Recuso, ou tento em vão ignorar algumas. Algumas
derivativas, arrebatadoras, entretanto. Fecho entre as mãos estes ínfimos, mas
intensos, lábaros, quando pela garganta enfio braços e pernas desesperados: no
impulso de organizar a carnadura dos sentimentos, manualmente, forçosamente,
trato de conter violentos rebuliços, porque espontaneamente, não. Não deveria!
–farelos católicos arraigados, apesar de todos os incêndios, resistem zumbis. Contratam-se
zumbi-exterminadores, os melhores, e restam não mais que ectoplasmas. Mas estes
encontram matéria, ou bando, ou cumplicidade, noutros dispositivos repressores,
para algum tipo de rédea, ou alguma classe de fiscalização, como certa moralidade
e cautela. De viver, de sofrer, de ferir em vão. Os dedos trabalham pelas
superfícies, para evitar das bocas certas objetivações da alma. Se falham as
disciplinas internas, que não estreiem vida. Ou mantenham-se pelos porões.
Pelos baús das entranhas, mais pensados que vividos, mais vividos que
percebidos assim. Mas por dentro é fogo e em vão são os crucifixos. Em vão são
as ditaduras glaciais ante a chama. Esse é, de todos modos, um pensamento
covarde; em vão tudo será se assim quiser ser. E não há antídoto para certas convulsões,
enquanto as desilusões não apagarem as brasas, muitas vezes nem assim. “Não
pode ser”, diz o fígado saudoso -e sedento sempre- de vinho-complacência-e-compleição ao coração que nada
sente, ainda que seja eternamente responsabilizado por. “Não pode ser, o quê?”,
rebate arfante o coração quente, entretido em assuntos muito mais sérios, como,
por exemplo, fazer circular a vida em um corpo infinito, de extremidades quase
inexploradas, misteriosas e frias. Como um pé em pleno inverno. De unhas
grandes, abandonadas, assim despercebidas. Garras. Que arranham as meias
embaladas em duras botas por calçadas molhadas mais de esgotos estourados que
da chuva há pouco existida. De existência fugaz, mas de consequências. E
existência inegável. Como as luzes dos vagalumes internos. Vivas, vivinhas e
vivíssimas; mas estas não podem viver por fora, não podem criar-se ao mundo, o
mundo já é, e foi difícil concebê-lo assim. A pesar dos cepos, inclusive
cambiários. Não pode ser que agora, agora depois de tudo, agora na iminência da
vida, das corridas, das apostas e cavalgadas; agora na catacumba dos medos, dos
traumas, das beiras, das linhas, das mesas, dos olhos, das calmas, das
disposições arduamente arranjadas, a vida-redomionho-tempestade-e-vulcão
exploda. Ou imploda o coração cansado em aquecer mãos e pés, que por dupla
razão metem-se pela garganta, para organizar os assuntos internos e para
afugentar frios e abandonos. E então os vagalumes, acesos, atentos, vivos,
brincam pelo estômago e nem boldo. Reajo estupidamente. A pele estupidamente. A
vista estupidamente. [Paralisias!] O tempo nublado dando matéria à segunda-feira-cheios-e-vazios,
por janelas que deixam algum amarelo pelas calçadas. Algum amarelo por dentro além
dos vagalumes; algum facho de sol alencarino vibrando entre os insetos domésticos,
glamorosos e brilhantes, intoxicados e intoxicantes. Cuido dos vagalumes
enquanto sinto. Cuido para ser sincera com estes pequenos (a)fetos. Mas
dispersos, circulam e inquietam a alma. E juntos, incendeiam.
Perdi um diário pelo mundo; os dias que foram se foram outra vez. Voaram das caixas, gavetas, malas, idas e vindas, nuvens, com um sopro de invisibilidade. Há um rastro serpentina por areias frias, restam sulcos cansados. Perdi e nem idéia do paradeiro, cabelos para trás, mandíbulas à mostra. Enfim estes olhos profundos vão à superfície, em salto desesperado, olhos planos sem qualquer artifício, maquiagem, máscaras de camomila, nem cremes de rosa mosqueta. Perdi certos dias, feitos para serem lembrados em outros, mediante pétalas recolhidas, em um diário de capa de xita. Xitinha: flores pequeninas, brancas, azuis, amarelas, em fundo vermelho sangue. E ditos com gosto de sangue, cheiro de sangue, formas de sangue, riscos, mortes: um cemitério de pensamentos falecidos em palavras. Há, de todo, um capricho do tempo, e das geografias. GPS nos marcadores, [[OJO]] dois olhinhos e um nariz –xereta!-, para localizar minhas partes espalhadas pelo mundo. São restos de: unhas, pêlos, cílios, suores, espinhas, peles, caspas, larvas, dores, cafés, cinzas, embalagens, cuspes, capas, cascas, escamas, lamentos. Os dias guardados para iluminar a existência: para ler-se e desconhecer-se depois, ou reencontrar-se, odiar-se, amar-se, entre outros reflexivos.
Para ser um ano bom; um carinho diário aos dias. E mais silêncio.
Intemperança: pelas paisagens, vale de destroços. Dos olhos arrebatados, do estômago sacudido; os olhos veem cinzas, pese o insistente colorido do corpo satisfeito. Do corpo lembrado do amor. Agora um sol delicado, à pele nenhum ardido. Porque as calçadas movem-se segunda-feira, a alma epilética idem. Um velho atira uma ponta de cigarro contra minhas canelas. Olho, nem mesmo desvio. Se queimo, nem mesmo percebo. Se percebo, nem mesmo me importa. Por dentro o solo convulso, não convencido: um mar de páreas, um mar de vazios, um cerco tolo, um gueto lama. Ser elegante e suportar, em nome da maturidade, sussurrar esta superioridade com ditos de bem vividos. Para? Não será nunca compreendido. E será arrogante. E será inútil. Ainda que seja importante tomar os pelos selvagens dos sentimentos aguerridos. Expressá-los. Contra os cânceres. Melhor será apenas uma perspectiva amarga. E nenhum mar à vista, para purgar de mim a mim mesma. Esse mim mesma corrompido. Exausto. Um ponto de vista, eis que é, um lugar posicionado (ainda que mal!), vistas guardadas no bolso, palavras, pessoas embrulhadas, guardados, guardados enrolados em panos, pétalas em lenços, ruídos, frases, cinzeiros, copos, guardados tempos, outros, guardados. Portas batidas ao ouvido, depois murmurinhos, acontece. Acontecem sábados, domingos. Segundas atropelam, arrancam, desentranham, engasgam, apoderam, sujeitam. Segundas recordam os malfeitos, os defeitos, os incidentes não esquecidos. E não há paz sem olvido e um olvido é um tipo de morte. Haverá que matar mais um trânsito, uma freqüência pirata, silenciar outra vez o juízo. O juízo vez e outra deseja guerra e trono, império, sangue, vísceras. À custa da temperança, insinuam-se as loucuras. E o juiz-juízo vê assim. E quer ver assim, não há dito que o amanse. Um leão no peito, que reina, que urra, que balança a juba e é adorado. Mesmo quando escolhe a coadjuvância, por generosidade, respeito ou qualquer sentimento que o alastra a culpa católica ou o moralismo. Ou uma justa noção ética. Ou um inacreditável senso de honra. E justiça. Não adiantará. Porque há ouro em seus contornos, ainda que ausente, é sua figura revolvida, inquirida e reivindicada. E sempre haverá répteis, insetos e dragões indesejados.
***
Quando haverá de amornar este espírito, por uma segunda-feira mais branda, me pergunto. Por uma segunda-feira-rotina, sem gosto de lâmina, sem rebuliços. Algo se move dentro de mim, cronicamente, como estas segundas. Fardo das almas irrequietas. Ou da ira de um mar bravio esverdeado, recusado por largas ausências.
***
Sábado de bicicleta por bulevares e sob coloridas árvores e entre ventos carinhosos úmidos. Paramos: havia uma carta no chão, 8 de copas. Oito copas de intemperanças. Depois, outro sábado, outras espécies. Outras dores, saudades, promessas que jamais se cumprirão. Tristezas que trespassam alegrias já não mais tão alegres. E que encontram força em outras tristezas, oxalá menos definitivas.
Porque escasseia a profundidade na maioria;
Porque essa maioria rasa é em geral mais tagarelante;
Porque essa tagarelice encontra mais espaços onde existir;
Porque estes espaços fazem repercutir eloqüentes asneiras;
Porque se repetem tais retóricas ademais em círculos ditos seletos;
Porque as seletividades se argumentam criteriosas;
Porque os critérios se entranham em razões mais plausíveis que justas;
Porque os silêncios podem matar os verborrágicos emudecidos;
Porque os profundos podem estar fadados à asfixia;
Porque um grito é um resultado de reservas explodidas além da voz;
Porque a rasidão não permite compreender certas camadas poéticas do mundo;
Porque a profundidade dói à ponta de broca;
Porque, dada tal sensibilidade, as carnaduras podem, enfim, não suportar tanta dor.
Algumas entre outras razões para recatar-se. Ou à causa de uma exclusão crônica.
Ai, meu coração revirado. Dias no Brasil, motivos vários, abraços de variadas profundidades e espécies. Puestas en escena, teatros, roteiros, textos, cenários, brindes, frases, tons. Vi algumas lutas de encaixes, acordos para pertencer, os preços por um lugar aflito, por estar, de outros em outros lares não deles. Mas vi, de outra sorte, apelos comovidos, olhares reais. Senti apertos, desconsertos, gritos. Em mim, um lábaro, um poço, um fosso de guardados, semi-expostos sociais, alguns reais perdidos, alguns pesos despidos, calor maior parte das vezes. Um frio reiterado em certas ocasiões, em gestos raros, em fartos goles, em inacabados códigos, não tão identificados. Um pó de vida ou dois; éramos duas entre multidões, e nem mesmo dupla, um + um, escalas de dimensões dinâmicas, em trânsito e em transes. Inesperados carinhos, encontros, desencontros: vi meu tempo só, meu tempero na minha língua, meu tato em meus ombros cansados, alguns arranhões cobertos. Eu vi um canto de vertigens, de gentes e estéticas, vitrines; essa guerra não travaria, entre contos e cantos traiçoeiros, mais vale uma estranha letra em ouvidos solitários; mais látegos, menos cotovelos. Menos aspirantes ou concorrentes, talvez prefira ameaças não tão reluzentes e minhas dores mais minhas. De fato, na pele tocaram poucos, meus sentidos a níveis loucos, à camada do coração apenas uns. Uns que na mala deram gemidos, por excesso e sobrepeso temido, de tanto absorvido, assimilado. Trago comigo certos contidos, afagos, perplexidades e pensamentos indefinidos, palavras soltas, fios descascados e cafés. Bom sentir-se amada e entre queridos, em todo caso, essa brasileiríssima saudade. Depois, perdida demais para voltar, encontrar as mesmas portas trancadas, o mesmo frio da madrugada, o mesmo não por destelhar. Enfim, em uma semana, um ano novo meu, uma nova unidade nos números, algarismos nos tempos, dígitos nos zelos. Mais difícil encontrar razão com o espírito assim de quente, notas que voam pelas redes sociais ausentes, presentes meus acidentes verbais. Massificadas as tecnologias, quase passo dias sem horas e meios, em contrastes de regalias, recursos e freios. Aos uns tocados pelos afins, o beijo derradeiro envio por fim, pelo vento, perfumes, bocados. Ainda que os choros persistam, os risos salvam, as tolerâncias conservam, os amores resgatam. Esses uns sabem-se assim. Bom sentir-se “nós”, dias que sejam, afinal de contas.
assim, um de cada vez; quando firmo o pé mãos na cintura: quem eu quiser? um personagem uma miragem uma pose, retrato qualquer... imagem, crio ao mundo assim, palavras a gosto um beijo no rosto sorriso descrever é morrer do próprio juízo